Publicado em 1900, ano da morte de Eça de Queiroz, foi publicado pela primeira vez na Revista Moderna. O livro não chegou a ser publicado na íntegra na revista, pois esta encerrou antes do final da história. Além disso, o próprio livro não foi revisto pelo autor, que morreu antes de o poder fazer.

Embora com um estilo diferente de outras obras de Eça de Queiroz, como O Primo Basílio ou Os Maias, A Ilustre Casa de Ramires é uma leitura obrigatória do autor que trouxe o Realismo à literatura portuguesa do século XIX.

A ação decorre no Norte de Portugal, na fictícia Santa Irineia, em Santa Clara, onde os acontecimentos são descritos com ironia, cantigas, vinho e alguns momentos violentos, mas cómicos. A história narra a vida de Gonçalo Ramires, ou melhor, do próprio Portugal.

Gonçalo Mendes Ramires: o fidalgo

O último descendente de uma família nobre portuguesa, Gonçalo Ramires, sente a pressão de ser o último homem de uma família muito importante e que ainda não realizou o que um homem deve realizar na sua idade. O jovem, conhecido pela população como o Fidalgo, ainda é solteiro e vive na casa da família com o pessoal da casa, que cuida dele e dos cavalos. A irmã de Gonçalo, Gracinha Ramires, casou com José Barrolo, que vivia noutra localidade.

Gonçalo quer trabalhar na política, quer ser deputado eleito pela sua cidade e fazer parte do Parlamento. No entanto, antes mesmo de encontrar um possível emprego no Parlamento, foi desafiado a escrever um livro sobre os seus antepassados, destacando os seus actos gloriosos. Através deste desafio, o leitor vai conhecer melhor a personalidade de Gonçalo e perceber o quanto ele quer honrar os seus antepassados e ter o mesmo reconhecimento que a sua família teve no passado.


Um livro, duas histórias

No início, pode ser um pouco confuso estar em contacto com duas histórias diferentes. Eça de Queiroz decidiu mostrar-nos o que Gonçalo estava a escrever para publicar e, eventualmente, ganhar popularidade. Normalmente, os acontecimentos escritos por Gonçalo estão relacionados com as experiências que o leitor já leu sobre ele. Ao contar os acontecimentos canónicos de Tructesindo Ramires, o seu antepassado medieval, Gonçalo parece tentar ser como o seu bisavô.

Tructesindo é um herói magnífico que fez muito pelo seu país e pela sua família. Gonçalo é apenas um homem comum, que vive numa casa bolorenta, quase a cair aos bocados, apenas pelo seu estatuto na sua cidade. Tructesindo é um homem corajoso que não tem medo de matar pela sua glória e honra, enquanto Gonçalo tem medo das pessoas e, por vezes, mete-se em situações menos próprias.

Estará o Gonçalo a representar Portugal?

É importante ter em conta que o livro foi escrito após o Ultimato Britânico, quando Portugal aceitou as exigências do Reino Unido relativamente a territórios em África. A situação levou os portugueses a desacreditarem o rei, afirmando que este não era suficientemente forte para marcar a sua posição contra a monarquia britânica.

Desta forma, Gonçalo pode representar a aristocracia e a nobreza que se opunham à decisão do rei, com o objetivo de ter um Portugal forte, com quilómetros de território. No entanto, para além desse desejo de território, pouco faziam, sendo ricos sem trabalhar, vivendo à base de impostos pagos pelo povo.

Eça de Queiroz critica essa camada da sociedade que se baseia em momentos românticos e passados para se agarrar a uma sociedade que está a mudar. Desta forma, Gonçalo e os seus amigos podem estar a representar o que era Portugal na altura em que o livro foi escrito.

Alcançar o melhor

A dada altura, Gonçalo consegue o que quer, não exatamente porque o mereça, mas devido ao seu estatuto social. Ganhou popularidade por ter feito algo que antes tinha sofrido e correu para a polícia para apresentar queixa. No entanto, quando Gonçalo fez uma ação semelhante, que teve consequências mais graves para as vítimas, foi aplaudido e reconhecido não só pela população da sua cidade, mas também de outras cidades, nomeadamente Lisboa.


No entanto, e não como seria de esperar, Gonçalo Ramires não é alvo de críticas profundas por parte do autor, que no final do livro resume o que o Nobre fez e como isso é apenas o que Portugal representa. Desta forma, Eça de Queiroz terá sugerido que Gonçalo Ramires foi apenas uma vítima do sistema em que vivia, que era o verdadeiro inimigo.

Vale a pena ler?

Na minha opinião, este livro é uma obra-prima. Não tão dramático e agitado como Os Maias, A Ilustre Casa de Ramires tem uma história com a qual muitas pessoas se identificam. Há muitos Gonçalo Ramires em todo o mundo que podem ser apenas vítimas do sistema.

Gostei muito da forma como o livro sugere que o estatuto social tem um grande impacto no que as pessoas fazem. Mostra como a vida pode ser fácil quando as pessoas estão numa boa posição social e que, com pouco esforço, se conseguem grandes feitos.

Relembrando valores de honra e até de confiança, Eça de Queiroz, como sempre, fez um ótimo trabalho de crítica à sociedade portuguesa.