"Por estranho que pareça, ponho as sondagens em perspetiva. As sondagens não são uma previsão. Perguntamos às pessoas: "Se houvesse eleições hoje, como votaria?". Bem, as pessoas dizem hoje que vão votar de uma maneira e amanhã dizem que vão votar de outra maneira, e nós avaliamos as tendências", disse António Gomes, sublinhando que "não se deve tentar extrair delas poder de previsão".

Exploração das sondagens

Em entrevista à agência Lusa, o sociólogo, professor universitário e diretor-geral da GfK Metris alerta ainda para a exposição excessiva às sondagens e para a sua exploração, considerando que as chamadas "tracking polls" têm o mesmo rigor metodológico de uma sondagem.

"O objetivo de uma sondagem de acompanhamento é avaliar as tendências e compreender a evolução. Não há nenhuma razão para que uma sondagem de acompanhamento seja menos fiável do que qualquer outra sondagem quando é realizada com o mesmo cuidado metodológico que qualquer outra sondagem", afirmou.

A diferença reside sobretudo no facto de a sondagem tracking trabalhar com "uma média móvel de um número constante de entrevistas, que corresponde à recolha mais recente que foi feita", salientou.

No caso da sondagem da TVI/CNN, "no primeiro dia são feitas 200 entrevistas, no segundo dia 200, no terceiro dia 200".

e "as primeiras 600 são utilizadas para extrair os primeiros resultados, que são publicados", enquanto "no quarto dia, são efectuadas 200 entrevistas, e as primeiras 200 entrevistas já não contam para o cálculo das intenções de voto".

Sondagens como instantâneos

Na lógica de uma sondagem ser um instantâneo de um determinado momento, numa sondagem de tracking, o objetivo é "ter o maior número possível de instantâneos", que são "quase como fotogramas de uma curta-metragem".

"Se eu tiver muitos instantâneos, consigo ver movimentos no que está a acontecer, e esses movimentos não são mais do que uma apreciação de tendências", explicou António Gomes.

O especialista diz ser "evidente que podem alterar o comportamento dos eleitores", considerando que nestas eleições presidenciais previu que se afirmariam como "protagonistas", porque havia um cenário de empate técnico "para os mais óbvios" até sexta-feira, que admite até poder persistir.

"O nosso processo mental tende a debater-se com demasiadas escolhas e, por isso, uma das formas de as pessoas pensarem, 'afinal, em quem devo votar? ' é precisamente olhando para o que dizem as sondagens. Neste caso, as sondagens serviram ou podem ter servido para que as pessoas repensassem as suas escolhas e olhassem para elas e pensassem "A ou B vai passar [à segunda volta], portanto eu tenho essa informação em conta, e essa informação pode influenciar-me", argumentou.

António Gomes vê assim as sondagens como uma ferramenta para as pessoas "ganharem algum esclarecimento", reconhecendo no entanto a instrumentalização das sondagens, que devem ser explicadas para serem compreendidas.

"Sugiro que se tenha muito cuidado e rigor na exposição das sondagens. Quando as sondagens são instrumentalizadas, ou seja, há uma tendência para dizer "estou à frente nas sondagens" ou "estou atrás e elas não valem nada", fala-se mais das sondagens do que das suas propostas políticas, salientou.

Decisões de voto tardias

António Gomes referiu-se ainda ao fenómeno das decisões de voto tardias, citando os estudos de Marina Costa Lobo sobre a construção desse desejo, que têm mostrado essa tendência, incluindo em 2022, quando uma tracking poll deu vitória ao PSD de Rui Rio, mesmo quando as eleições davam maioria absoluta ao PS de António Costa.

"Há uma parte do eleitorado que toma a sua decisão na véspera e outra quase à entrada da mesa de voto. Se isso acontece, porque é que não pode haver uma diferença entre uma sondagem na sexta-feira e os resultados eleitorais no domingo?", questiona.

"Nestas eleições, sempre achei que aqueles que admitem mudar de opinião eram tão importantes como os indecisos", disse, sublinhando que "são uma forma de eleitores indecisos" e que alguns mudam de voto por causa das sondagens.

Para António Gomes, "o dilema é complexo": "Qual é a alternativa? Não fazer sondagens ou não as publicar? Já sabemos que quando isso não acontece, os políticos e os candidatos têm-nas. É o eleitorado que não as tem", disse, rejeitando a proibição.