No passado fim de semana, esse ciclo terminou. A maior zona de comércio livre do mundo começou finalmente a ganhar forma, ligando dois blocos económicos que, juntos, representam cerca de 700 milhões de consumidores.

Não é apenas um acordo comercial. É uma escolha estratégica de longo prazo.

Enquanto algumas vozes presas a modelos económicos ultrapassados continuam agarradas a lógicas de proteção, subsídio e medo da concorrência, a maioria da Europa decidiu avançar. Contra o isolamento, contra o unilateralismo, contra a tentação de fechar fronteiras económicas num mundo que só cresce quando coopera.

E Portugal está numa posição singular dentro deste novo tabuleiro.

Tenho vindo a escrever há anos sobre o papel natural que Portugal pode e deve assumir como plataforma atlântica entre a Europa, a América do Sul e, cada vez mais, África. Este acordo transforma essa visão numa realidade operacional. Abre portas, elimina tarifas, reduz barreiras e cria uma das maiores oportunidades comerciais da história recente do nosso país.

Para as empresas portuguesas, o Mercosul deixa de ser apenas um destino distante e passa a ser um mercado integrado, previsível e acessível. Para as empresas brasileiras, argentinas, paraguaias e uruguaias, Portugal afirma-se como o ponto de entrada lógico na União Europeia. Pela língua, pela estabilidade, pela infraestrutura, pelo talento e pela nossa comprovada capacidade de execução.

Não se trata de teoria. Os números falam por si. Bruxelas estima que as exportações europeias possam crescer até 39% quando o acordo estiver plenamente em vigor, o que representa quase 50 mil milhões de euros adicionais em comércio. Portugal, com a sua base exportadora em expansão e com um tecido empresarial cada vez mais sofisticado, está preparado para captar uma parte relevante deste movimento.

Este é também um sinal claro de que a Europa escolheu uma via diferente da atual postura da administração norte-americana, marcada por tarifas, protecionismo e uma visão de curto prazo. A União Europeia aposta na integração, na escala e na criação de valor partilhado. Essa decisão terá efeitos profundos na próxima década.

Para Portugal, o desafio agora não é apenas aproveitar a oportunidade, mas posicionar-se de forma ativa e estratégica. Atrair sedes regionais, centros de decisão, plataformas logísticas, hubs industriais e financeiros ligados a este novo corredor económico atlântico. Criar condições para que mais empresas do Mercosul escolham Portugal como a sua base europeia. Reforçar a diplomacia económica. Acelerar acordos de cooperação empresarial, científica e tecnológica.

O futuro do comércio global está a ser redesenhado. A assinatura do acordo UE–Mercosul marca uma mudança de era. E, pela primeira vez em muito tempo, Portugal não está na periferia dessa mudança. Está exatamente no seu centro.

Agora cabe-nos fazer o que sempre soubemos fazer melhor quando acreditamos em nós próprios: transformar oportunidade em crescimento, abertura em prosperidade e visão em realidade.