Na sequência dos recentes encerramentos dos cinemas Cineplace e da reorganização de alguns espaços pertencentes a outras empresas, o Ministério da Cultura, Juventude e Desporto anunciou a criação de um grupo de trabalho para esta área, mas os cineclubes e associações entrevistados pela Lusa pedem um maior apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) para a exibição e o envolvimento das autarquias no âmbito das suas competências.

"Temos aqui duas situações muito diferentes: por um lado, o circuito comercial de cinema, que se transformou num circuito de centros comerciais, e que parece estar a passar por algumas dificuldades. [...] Depois, por outro lado, temos as projecções organizadas pelas autarquias locais, que têm a maior parte dos auditórios [onde muitos cineclubes programam]. Acho que aí a situação é um bocadinho diferente", disse à Lusa António Costa Valente, do Cineclube de Avanca e da associação Plano Obrigatório, que programa sessões semanais no Teatro Aveirense, no centro de Aveiro.

O professor universitário referiu ainda que o encerramento de salas de cinema em centros comerciais é da competência das administrações dos centros e que as alternativas que vêem como possíveis para espaços tão grandes como os cinemas.

Para Costa Valente, as autarquias têm uma palavra a dizer e devem insistir para que os centros comerciais mantenham as salas de cinema.

Ainda na semana passada, o Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Luís Nobre, garantiu que a desativação das salas de cinema do Estação Viana terá de ser aprovada pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, mas "até ao momento, o Ministério da Cultura ainda não iniciou esse processo".

"A Câmara Municipal de Viana do Castelo vai emitir um parecer desfavorável. Os pressupostos subjacentes à construção do centro comercial no centro histórico da cidade também se basearam em considerações culturais. A integração do cinema no centro comercial foi um fator de decisão. Esta posição foi claramente comunicada ao proprietário e ao diretor do centro comercial. Que não haja dúvidas sobre isso", sublinhou o presidente da Câmara numa reunião do Conselho.

Do outro lado da exibição comercial feita pelos principais exibidores estão, para além dos cinemas independentes, e com resultados positivos - como o Nimas e o Ideal, em Lisboa, e o Trindade, no Porto -, cineclubes e associações, que trabalham, na maior parte dos casos, em articulação com as autarquias que detêm os espaços onde é possível exibir.

Em declarações à Lusa, Nuno Pinto Cardoso, da associação Cinemalua, que promove sessões semanais no Cine-Teatro Jaime Pinto, em São Brás de Alportel, no distrito de Faro, desvaloriza a situação atual e salienta que a média de espectadores por sessão é estável e, no caso dos cineclubes, até tem subido.

"Quero acreditar, acredito mesmo que há público, que há público para um determinado tipo de cinema, que acrescenta alguma coisa", disse Nuno Pinto Cardoso, que se congratula com o facto de haver uma discussão sobre o assunto porque "mostra o potencial do cinema".

Em consonância com as declarações de outros cineclubistas, Tiago Veloso, do Cineclube da Maia, que consegue realizar sessões com mais de 150 pessoas, salienta que "nos últimos 10 anos, [há] razões para acreditar que o cinema no Porto está a melhorar", dando os exemplos do Trindade, mas também do Centro de Cinema Batalha, que é municipal.

"Isto dá-nos um sentido de unidade. Pensar que o Cineclube da Maia é mais um elemento para considerar o cinema no Grande Porto", disse o cineclubista, que sublinha que a ideia de perder espectadores não os afecta tanto.

"Acho que agora, em vez de todo este drama do fecho dos cinemas, poderia haver uma oportunidade de promover a rede de cineclubes e associações para outros espaços. [...] Há equipamentos prontos a receber sessões de cinema, pelo que um incentivo ao alargamento desta rede me pareceu razoável", disse o programador Nuno Pinto Cardoso, que sugeriu que o ICA criasse um programa de apoio à exibição intermédio, entre o Apoio à Exibição em Circuitos Alternativos (com um máximo de 10 mil euros por ano) e o Apoio à Exibição (máximo de 57.500 euros por ano).

Por outras palavras, mas na mesma linha, o presidente do Cineclube de Faro, Carlos Rafael Lopes, salienta que "embora o encerramento das salas comerciais seja muito preocupante, há aspectos positivos", nomeadamente o facto de existirem espaços independentes e públicos que oferecem alternativas aos "cineplex".

O diretor do cineclube, que celebrará o seu 70º aniversário em 2026, classifica de "irrisório" o montante atribuído pelo ICA para apoiar a rede de exibição alternativa "e para o trabalho que os cineclubes fazem".

Anteriormente, o presidente do Cineclube Joane, de Vila Nova de Famalicão, tinha dito à Lusa que se o ICA triplicasse o apoio à instituição (de 8.000 euros para 24.000 euros anuais), seria possível ambicionar a realização de sessões diárias de cinema.

Sobre este assunto, Costa Valente, do Avanca e do Plano Obrigatório (cuja média de público no Aveirense em 2025 rondava os 100 espectadores), é categórico: "Acho que as coisas têm de passar pelo ICA, é o braço direito do Ministério da Cultura [nesta área]. Tem aqui um papel absolutamente fundamental. Não pode continuar a apoiar a produção se não apoiar depois a exibição. Os filmes têm de chegar ao público, se não chegarem não existem. Fazer filmes para mostrar em festivais é muito divertido, mas não vale de nada se depois não puderem ser exibidos em todo o país."