Ao longo da costa ocidental da Península Ibérica podem ser observados alguns dos melhores exemplos europeus de monumentos de pedra antigos, tais como dólmenes, menires, fortalezas e pontes ou trampolins. A sua existência e conjetura quanto ao seu propósito original foi examinada em "A Misty History of Palaeolithic Portugal" que foi publicado na TPN de 10 de maio a 07 de junho de 2021.
Durante o presente século, métodos aperfeiçoados de investigação arqueológica produziram novas teorias sobre a natureza das tribos que construíram e utilizaram estas construções. Infelizmente, a promoção pelo Turismo de locais acessíveis como sendo locais românticos levou a que fossem saqueados por vândalos com detectores de metais em busca de tesouros míticos ou artefactos que possam ser vendidos a devotos da ficção New Age.
Especula-se, nomeadamente, sobre a associação sobrenatural e funerária com espécies extraterrestres ou mitos escatológicos.
Por isso, é refrescante ler as conclusões a que chegou a tese de mestrado da Dra. Henna Lindstrom, datada de 2014 e intitulada "Casas das Mouras Encantadas - Um estudo das antas na arqueologia e folclore portugueses". Esta pode ser encontrada no sítio web academia.edu ou através de pesquisa na Universidade de Helsínquia.
Segundo este estudo, os menires, que datam de cerca de 5000 a.C., e as antas, que surgiram cerca de mil anos mais tarde, foram construídos por mulheres encantadas para o efeito, que se tornaram guardiãs do mundo dos mortos até que o feitiço fosse quebrado através da recitação e execução de tarefas.
Os etimologistas consideram que a palavra homónima "Moura" tem raízes no indo-europeu "mrtuos" e no latim "mortuus", que se combinaram para formar "morto" nas línguas portuguesa e galega, havendo também uma ligação com a língua celta, cujos povos invadiram a Península Ibérica ocidental por volta de 700 a.C. e adaptaram os monumentos megalíticos às suas próprias necessidades.No entanto, tal não esclarece a natureza dos construtores tribais originais que poderão ter sido os Oestriminis - mencionados pelos historiadores gregos como fazendo parte de um substrato indígena que precedeu a evolução dos Lusitanos e dos Celtas.
As caraterísticas atribuídas às Mouras Encantadas variam de região para região, mas todas as lendas concordam que são espíritos antropomórficos, femininos, capazes de mudar de tamanho e de forma. Na forma humana são retratadas como donzelas voluptuosas que passam o tempo a pentear as suas tranças douradas, a fiar fios (de vida), a cozer pão, a cultivar plantas e animais, que podem ser transformados em metais preciosos. Infelizmente para os destinatários destas dádivas, estas transformam-se em pó e cinzas quando são retiradas do recinto sagrado do dólmen!
Outros conceitos sobre o tesouro são os de que consiste em conhecimentos e documentos que podem ser transmitidos a quem se atrever a entrar no dólmen nas horas enfeitiçantes do pôr do sol, do nascer do sol e dos solstícios, numa tentativa de quebrar o feitiço. No entanto, tais tentativas raramente são bem sucedidas e o aventureiro arrisca-se a ficar preso no Limbo ou a ser transformado numa besta, como um touro ou um urso, que é então posto a afastar ferozmente os intrusos. As próprias Mouras são popularmente descritas como transformáveis em serpentes, sapos e outros animais mais pequenos.
As estruturas de pedra dos dólmenes são liminares. Representam não só um local de repouso para os cadáveres no limiar do mundo subterrâneo, mas também a saída das almas que se libertam de um ventre espiritual.
Este aspeto foi sucintamente analisado pela saudosa Professora Ana Rosa Gomes Pinto da Cruz no seu erudito ensaio "A arqueologia da morte na região de Abrantes durante o Bronze Final (séculos XIII a VIII a.C.): a necrópole de mamoas de Bioucas-Souto", trabalho incluído em "Humanidade Multicutural", que compilou com Marco Valente em 2024, e que apresenta conclusões valiosas a partir do exame de provas científicas e do folclore.
A natureza sobrenatural de espíritos semelhantes aos das Mouras Encantadas e na presença de rituais xamanísticos é atribuída também a alguma da arte rupestre incisa da gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo, e do famoso vale de Foz Côa, no Norte de Portugal. Entre as representações de auroques, íbexes, veados e cavalos extintos, encontram-se figuras abstractas do que poderiam ser caçadores falecidos.
Em junho de 2020, foi descoberto em sedimentos um painel quase perfeito que permitiu datar o período de 21.000 a.C. A questão que se coloca é a da identidade deste povo dotado, capaz de se exprimir de forma tão eloquente durante um período de 12.000 anos do Mesolítico. A teoria popular é a de que descendem das tribos Cro Magnon, que ocuparam a maior parte da Europa a partir de cerca de 50.000 a.C. Relíquias do xamanismo, como máscaras faciais de veado vermelho, foram encontradas em antigas habitações rupestres, bem como pinturas em superfícies rochosas.
No Alentejo, o folclore descreve os Mouras como tendo cabelos castanhos (não dourados) e uma tez mais escura, enquanto na Galiza a cor é, por vezes, vermelha ou mais escura.Isto pode ter alguma verdade histórica, na medida em que se pensa que tribos das Ilhas Britânicas e do Norte de África vieram por mar para colonizar a costa ocidental da Península Ibérica.
Uma lista de Antas que podem ser visitadas sob supervisão está disponível no Turismo, mas atenção que, uma vez dentro da estrutura de pedra, o tempo pode mudar e o visitante pode ficar encantado para sempre.
Um ensaio de Roberto CavaleiroTomar.18 de fevereiro de 2026







