Os números são claros. O investimento imobiliário em Portugal atingiu 915 milhões de euros no primeiro trimestre de 2026, um crescimento de 34% face ao mesmo período do ano anterior. Num contexto em que a Zona Euro registou uma quebra média de investimento na ordem dos 26%, este desempenho não é apenas positivo, é diferenciador. Mais do que um bom trimestre, é um sinal de posicionamento.
Este crescimento foi impulsionado sobretudo pelos setores de hotelaria e retalho, que continuam a demonstrar uma capacidade notável de atrair capital. O turismo mantém-se como um dos grandes motores da economia nacional e isso reflete-se diretamente no apetite por ativos hoteleiros. Ao mesmo tempo, o retalho prime, especialmente nas zonas mais consolidadas de Lisboa e Porto, continua a beneficiar de uma oferta limitada e de uma procura consistente.
Mas há algo mais profundo por detrás destes números. O que este estudo da Colliers evidencia é uma mudança na forma como Portugal é visto no contexto internacional. Já não somos apenas um mercado oportunista ou de recuperação. Somos, cada vez mais, um mercado considerado estável, previsível e com fundamentos sólidos de longo prazo.
A estabilidade das yields, a inflação controlada e uma maior previsibilidade das condições de financiamento contribuem para este cenário. O capital não desapareceu. Tornou-se mais exigente, mais seletivo e mais focado em ativos que garantam rendimento estável e resiliência. E Portugal, neste momento, oferece exatamente isso.
No entanto, é importante não confundir resiliência com ausência de desafios. O mercado imobiliário português continua a enfrentar limitações estruturais que, a médio prazo, podem condicionar este crescimento. A escassez de oferta, especialmente em segmentos residenciais, continua a pressionar preços e a limitar o acesso à habitação. A burocracia e os tempos de licenciamento continuam a ser entraves reais à concretização de novos projetos.
Além disso, o foco do investimento ainda está muito concentrado em determinados segmentos e geografias. Enquanto hotelaria e retalho lideram, outros segmentos como o “living”, o build-to-rent ou até a habitação acessível ainda estão longe de atingir o nível de escala necessário para equilibrar o mercado.
O que este momento exige é uma visão estratégica. Se queremos continuar a atrair capital internacional e manter este posicionamento, é fundamental transformar o crescimento em desenvolvimento sustentável. Isso passa por diversificar o tipo de ativos, acelerar processos, criar condições para novos modelos de investimento e, sobretudo, garantir que o mercado responde não apenas ao investidor, mas também às necessidades reais do país.
Portugal está claramente no radar dos investidores globais. Isso já não é uma previsão, é uma realidade.
A questão agora é simples, mas decisiva: vamos aproveitar este momento para estruturar o futuro ou limitar-nos a gerir o presente?








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