Portugal está a começar a posicionar-se numa das indústrias mais estratégicas do século XXI: a economia dos dados e da inteligência artificial.

As notícias recentes mostram um padrão que não deve ser ignorado. O investimento da Nscale e da Microsoft em Sines, a criação de um Centro de Excelência de Inteligência Artificial da CGI em Portugal, a expansão da DXC Technology e o crescimento contínuo das infraestruturas digitais revelam que existe uma transformação em curso. Quando empresas globais escolhem Portugal para instalar capacidade computacional avançada, desenvolver soluções de inteligência artificial e criar centenas de postos de trabalho altamente qualificados, estamos perante algo muito mais relevante do que um simples investimento tecnológico. Estamos perante uma mudança de posicionamento económico.

O mundo está a entrar numa fase em que os dados, a computação e a inteligência artificial serão tão importantes como a energia, as estradas ou os portos foram noutras épocas. E, pela primeira vez em muito tempo, Portugal reúne condições únicas para participar nesta transformação. Tem energia renovável em abundância. Tem uma localização estratégica no Atlântico. Tem cabos submarinos que ligam continentes. Tem estabilidade política e social. E tem talento técnico reconhecido internacionalmente.

Durante décadas falámos da necessidade de atrair indústrias de maior valor acrescentado. Hoje elas estão a chegar. Mas talvez ainda não tenhamos percebido totalmente o significado disso.

Um data center não é apenas um edifício cheio de servidores. É uma plataforma de exportação de serviços digitais. É uma infraestrutura que gera faturação internacional, atrai empresas tecnológicas, cria ecossistemas de inovação e aumenta a procura por profissionais especializados. À sua volta surgem engenheiros, programadores, especialistas em cibersegurança, operadores de sistemas, consultores e investigadores. O impacto económico não se mede apenas pelo investimento inicial. Mede-se sobretudo pela atividade que se desenvolve durante décadas.

É precisamente por isso que estes projetos têm uma importância tão grande para a economia portuguesa. Permitem criar riqueza baseada em conhecimento, tecnologia e serviços avançados. Permitem também oferecer oportunidades profissionais capazes de reter muitos dos talentos que durante anos procuraram carreira fora do país.

Naturalmente, existem desafios. A rede elétrica precisa de continuar a evoluir. Os processos de licenciamento têm de ser mais rápidos. As universidades precisam de formar mais profissionais nas áreas tecnológicas. E a administração pública terá de acompanhar a velocidade que esta nova economia exige.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, Portugal encontra-se numa posição privilegiada. Não está apenas a assistir à transformação digital. Está a tornar-se parte dela. Talvez seja por isso que devíamos prestar mais atenção a estas notícias. Porque enquanto continuamos muitas vezes concentrados nos debates habituais, está a nascer uma nova economia em Portugal. Uma economia que não vive do passado. Uma economia que está a construir o futuro.