Penso que Constância é uma dessas cidades. Parece estar a um mundo de distância dos grandes gestos de Lisboa e Porto, ou da paisagem dramática do Algarve. A beleza tranquila de Constância está tão serenamente situada entre dois rios que parece menos construída do que cultivada. Aqui, o Zêzere dobra-se no Tejo e o belo Castelo de Almourol aparece, empoleirado à beira da água, como se admirasse o seu próprio reflexo.
Constância é outra das cidades genuinamente intemporais de Portugal. Não congelada, mas suspensa. E a região envolvente, um troço pouco conhecido do Ribatejo, apenas amplifica a aura intemporal da vila.
Se caminhar ao longo da margem do rio numa manhã quente, a primeira coisa que vai notar é o som da água. Não é o barulho do surf ou das cascatas, é apenas o murmúrio constante dos rios, o bater suave dos pequenos barcos e o riso ocasional que vem das praias fluviais. A aldeia enrola-se à volta do encontro do Tejo e do Zêzere, com casas caiadas de branco a cair para a beira da água. As ruelas empedradas serpenteiam em direção à cidade, e os telhados de terracota brilham sob o sol quente.
Não é exagero dizer que Constância parece mais pintada do que construída. Até Luís de Camões, o grande poeta português, encontrou aqui a sua inspiração. Diz a lenda local que ele viveu na aldeia durante algum tempo, alguns dizem que no exílio, enquanto outros simplesmente consideram que ele gostava da vista. Seja qual for a verdade, Constância abraça com orgulho esta ligação literária.
Uma aldeia óptima para passear
O que torna Constância tão inebriante é o facto de ser suficientemente pequena para ser percorrida a pé, mas suficientemente rica em pormenores para recompensar até o passeio mais lento. O centro histórico é um aglomerado apertado de fachadas suavemente envelhecidas em tons azuis, amarelos, cremes e pastéis. As ruas são estreitas, como acontece em muitas cidades antigas portuguesas. São apenas suficientemente largas para os habitantes discutirem alegremente nas varandas.
A Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, elegante na sua simplicidade, ergue-se como uma sentinela branca com vista para a confluência do rio. Perto dali, a Igreja da Misericórdia, datada do século XVI, continua a ser um dos exemplos mais bonitos da arquitetura religiosa portuguesa.
Discreto e encantador
Em Constância, o café toma-se devagar. As conversas duram mais do que os bolos que as acompanham. Há um respeito quase medieval pelo "chill", com uma suave aceitação de que o dia se desenrola como lhe apetece.
Créditos: Facebook; Autor: Município de Constância;
Rios e histórias
Os dois rios, o Tejo e o Zêzere, são a força vital da região. Durante séculos, a zona floresceu como paragem de comércio, servindo os rios de via de comunicação para mercadorias e mexericos. Atualmente, são um parque de diversões para pessoas que procuram uma forma mais digna de lazer. Desde o caiaque ao paddleboarding, passando pela pesca e a pesca artesanal, ou simplesmente sentar-se à sombra de um guarda-sol num café à beira-rio sem fazer nada de especial.
A praia fluvial de Constância fica ao lado do exuberante Parque Ambiental, que é um íman para as famílias no verão. As águas límpidas e as árvores frondosas são o cenário perfeito para desfrutar de uma cerveja gelada ou de um vinho branco bem fresco.
Castelos, florestas e lendas
Para apreciar Constância em toda a sua plenitude, temos de nos aventurar pelo Ribatejo circundante. Esta é uma terra de mais histórias. Algumas históricas e outras provavelmente inventadas durante longos almoços e alguns copos do vinho local.
Do outro lado do rio, situa-se um dos locais medievais mais extraordinários de Portugal. O Castelo de Almourol. Erguendo-se de uma ilha rochosa no meio do Tejo, o castelo parece algo arrancado das páginas de uma lenda. Construído pelos Cavaleiros Templários no século XII, Almourol não é meramente pitoresco; é cinematográfico. Ao pôr do sol, as muralhas de pedra brilham com um tom dourado mel, lançando reflexos tão perfeitos na água que se torna difícil dizer onde termina o mundo real e começa o sonho invertido.
Créditos: Unsplash; Autor: Steve Matthews;
Mais a norte, em direção a Vila Nova da Barquinha, a terra transforma-se numa manta de retalhos de campos, olivais e pinhais. Este é o Portugal agrícola, autêntico e sem embelezamentos. As aldeias são pequenas, mas têm o seu encanto. Aqui verá casas com fachadas de azulejos, cafés descontraídos à beira da estrada e habitantes locais que cumprimentam os estranhos com uma curiosidade educada. Entrar num destes cafés é quase como entrar na casa de alguém. Em muitos casos, é isso mesmo que acontece!
Se seguirmos um pouco mais para oeste, encontramos Abrantes, uma vila no topo de uma colina com um castelo que passou os últimos oito séculos a vigiar o Tejo. É em Abrantes que o rio se alarga, abrindo caminho pelo Ribatejo com uma confiança que reflecte a da própria vila. Dos jardins do castelo, a vista estende-se por colinas e planícies.
A sul, Tomar é uma das jóias da coroa portuguesa. O Convento de Cristo, uma obra-prima dos Templários (mais tarde, a Ordem de Cristo), é tão complexo, tão cheio de simbolismo e estilo que uma visita parece totalmente inadequada. Mas Tomar, vibrante e movimentada, oferece um ritmo diferente do de Constância. Tomar deslumbra e Constância acalma.
Um modo de vida
Constância é uma vila que não parece abraçar a urgência. Os habitantes locais movem-se a um ritmo ditado pela vida. As refeições acontecem quando as refeições acontecem. As lojas abrem quando os donos acham que devem abrir. Uma conversa na rua pode atrasar um plano inteiro, e ninguém parece importar-se muito. Essa recusa de pressa é, ironicamente, o que me atrai aqui. Em Constância, as pessoas redescobrem a arte de relaxar.
E, no entanto, Constância não é sonolenta no sentido de estagnação. É tranquila com intenção. As festas culturais, sobretudo as que celebram a poesia e as tradições ribeirinhas, dão uma explosão de energia e cor ao calendário. São várias as festas que transformam toda a vila numa explosão de flores, procissões, música e alegria.
Sabores do Ribatejo
Nenhum editorial sobre uma região ou vila estaria completo sem passar pela vertente gastronómica. Como em muitas outras regiões do interior de Portugal, a cozinha ribatejana é farta, rústica e deliciosamente despretensiosa. Aqui, a cultura alimentar foi criada por pessoas que trabalham a terra e vivem ao sabor das estações.
Os pratos típicos incluem as Migas. Um prato feito com carne de porco, que é rico e satisfatório. A Sopa da Pedra é uma sopa local com ambições nobres. Arroz de Lampreia (na época) é uma caldeirada de peixe de cor castanha escura feita de lampreia. Este é um prato reservado para os corajosos e os devotos. Pessoalmente, com este prato, posso ter a devoção - mas não a bravura. Digamos que é provavelmente um gosto adquirido?
E, claro, há o vinho. Os tintos do Ribatejo são confiantes, quentes e generosos. Tal como as pessoas que o produzem.
Porque é que Constância é especial
Constância oferece uma alternativa às estâncias balneares e às cidades agitadas. Uma alternativa baseada na reflexão, na geografia e na parceria harmoniosa entre o povoamento humano e as paisagens naturais. É um lugar que me lembra sempre que a beleza não precisa de ser espetacular para ser profunda.
Constância não é um destino que exija atenção. Simplesmente espera por mim, sempre paciente e sempre contente. Está sempre aqui, à beira da água, confiando que aqueles que, como eu, procuram um traço de autenticidade, o encontrarão nesta cidade serena e bela.





