Hoje, assistimos a uma transformação estrutural na forma como o território português é percecionado pelos investidores. A combinação entre tecnologia, novos modelos de trabalho, energia renovável, infraestruturas digitais e políticas de descentralização está a redesenhar a geografia do valor.

O litoral continuará a ser relevante, naturalmente. Continua a atrair investimento em residencial prime, turismo, escritórios de nova geração, data centers e logística. Mas já não é o único centro de gravidade. Cada vez mais, o interior do país surge como a próxima grande fronteira de crescimento.

A razão é simples: o capital segue o talento, e o talento deixou de estar preso aos grandes centros urbanos. O trabalho remoto, os hubs tecnológicos regionais, os parques industriais modernos e a crescente aposta em infraestruturas digitais permitem hoje que empresas globais operem a partir de cidades médias e regiões interiores com custos mais baixos, maior qualidade de vida e melhores condições ambientais.

Estamos a ver isso acontecer em distritos como Braga, Aveiro, Viseu, Castelo Branco, Guarda, Évora, Beja e até em zonas tradicionalmente consideradas periféricas. Novos polos industriais, centros de dados, projetos logísticos, parques tecnológicos e campus empresariais estão a criar emprego qualificado fora dos eixos clássicos Lisboa-Porto.

O impacto imobiliário é imediato. A procura por habitação cresce, o valor dos ativos estabiliza, novos projetos de uso misto surgem e o mercado ganha profundidade. O investidor que chega cedo a estes territórios encontra hoje oportunidades que já não existem nos centros urbanos saturados.

O interior oferece ainda outra vantagem estratégica: espaço. Espaço para crescer, para planear, para desenvolver projetos sustentáveis de maior escala, seja em indústria, logística, habitação acessível ou comunidades empresariais integradas. E oferece também acesso direto a recursos energéticos fundamentais, desde parques solares e eólicos até futuros projetos de hidrogénio verde.

Portugal começa assim a corrigir um dos seus maiores desequilíbrios históricos: a excessiva concentração económica no litoral. Este movimento não é apenas político ou social. É profundamente económico. Um país mais equilibrado territorialmente é um país mais competitivo, mais resiliente e mais atrativo para investimento de longo prazo.

O novo investidor internacional compreende isto muito bem. Já não procura apenas vistas de rio ou de mar. Procura ecossistemas sustentáveis, custos controlados, estabilidade, talento e capacidade de crescimento.

A nova geografia do investimento português não substitui o litoral. Completa-o. E, ao fazê-lo, cria talvez a maior oportunidade imobiliária da próxima década.