Por um lado, há uma necessidade estrutural de mais habitação, de requalificação urbana, de infraestruturas modernas e de uma transição energética que passa inevitavelmente pelos edifícios. Por outro, o setor enfrenta ciclos de abrandamento, custos elevados, escassez de mão de obra qualificada e uma pressão regulatória crescente. O que está em causa já não é apenas atravessar o próximo ano, mas perceber quem estará de pé em 2035.
Uma recente análise internacional sobre os megatrends da construção aponta caminhos que fazem todo o sentido quando olhamos para a realidade portuguesa. O futuro do setor não será definido apenas pelo volume de obras, mas pela capacidade de adaptação dos operadores. Habitação, infraestruturas públicas e reabilitação energética continuarão a ser motores de crescimento, mas só beneficiarão quem souber trabalhar de forma diferente.
Um dos eixos centrais será a economia circular aplicada à construção. Em Portugal, com um parque edificado envelhecido e uma forte aposta na reabilitação urbana, o reaproveitamento de materiais, o desmantelamento seletivo e as soluções modulares deixam de ser conceitos teóricos para se tornarem vantagem competitiva. Construir não será apenas erguer novo, mas saber transformar o existente com eficiência, menor pegada ambiental e maior controlo de custos.
A digitalização será outro fator decisivo. Não falamos apenas de software de desenho ou gestão de obra, mas de processos integrados, planeamento baseado em modelos digitais, logística inteligente e automatização administrativa. Num país onde a falta de mão de obra é cada vez mais evidente, estas ferramentas podem compensar parte dessa escassez e melhorar a produtividade, sobretudo em pequenas e médias empresas que hoje operam com margens muito apertadas.
Também a estrutura do setor tenderá a mudar. É expectável uma maior concentração, com empresas de menor dimensão a desaparecerem ou a integrarem grupos maiores. Mas isso não significa o fim do tecido empresarial local. Pelo contrário. Abre espaço para especialistas regionais, empresas focadas em nichos concretos, manutenção, reabilitação, eficiência energética ou soluções técnicas altamente especializadas. Quem diversificar serviços e oferecer soluções completas terá mais resiliência.
Em Portugal, onde o setor da construção é historicamente fragmentado, a cooperação ganhará peso. Parcerias entre empresas, integração em consórcios e redes de colaboração permitirão responder a projetos mais complexos e exigentes, sejam públicos ou privados. A flexibilidade, tão característica das empresas portuguesas, pode tornar-se uma vantagem real num contexto de mudança acelerada.
Os próximos anos não serão fáceis, mas serão decisivos. O setor da construção não vai desaparecer nem perder relevância. Vai transformar-se. E essa transformação beneficiará quem investir cedo em novos métodos, em pessoas, em tecnologia e em modelos de negócio mais ágeis. Até 2035, o trabalho existirá. A questão será simples: quem estará preparado para o executar.






