É isso que vejo hoje quando olho para Portugal, para a Europa e para o Mercosul. Não estamos apenas perante sinais positivos da economia portuguesa, estamos perante algo mais relevante, um reposicionamento silencioso num mundo que está a mudar rapidamente.
Portugal entra em 2026 com fundamentos sólidos. Crescimento acima da média europeia, desemprego baixo, dívida em queda e uma economia que tem mostrado uma resiliência interessante num contexto internacional cada vez mais instável. Turismo forte, execução do PRR e consumo interno têm sustentado este momento. Mas o mais importante não é o crescimento em si. É o que ele permite construir a seguir.
Vivemos numa fase em que a geopolítica voltou ao centro da economia. A Europa procura reduzir dependências, garantir acesso a matérias-primas críticas e reforçar a sua segurança energética. E é neste ponto que o Mercosul ganha uma importância estratégica evidente. Brasil e Argentina oferecem exatamente aquilo que a Europa precisa para sustentar a sua transição energética e industrial. Lítio, gás, petróleo, terras raras e potencial para hidrogénio verde. Não estamos a falar de oportunidades marginais, mas da base da economia do futuro.
Portugal, pela sua história e pelas suas ligações naturais a estes mercados, encontra-se numa posição única dentro da Europa. Não somos o maior país, nem o mais industrializado, mas temos algo que poucos têm. Capacidade de ligação. Cultural, económica e até política. Podemos funcionar como ponte entre dois blocos que vão precisar cada vez mais um do outro.
Ao mesmo tempo, há um fator que reforça ainda mais este posicionamento. A energia. Portugal tem vindo a afirmar-se como um dos países europeus com maior incorporação de energias renováveis. Isto não é apenas uma conquista ambiental. É uma vantagem económica e estratégica. Reduz dependência externa, estabiliza custos e torna o país mais atrativo para investimento. Num momento em que a Europa procura segurança energética e o Mercosul oferece recursos, Portugal pode posicionar-se no centro desta nova equação.
E depois há a indústria, muitas vezes esquecida neste tipo de análise. O setor do calçado é um bom exemplo. Portugal deixou de ser apenas um país de produção para se tornar um país de produção com valor acrescentado. Qualidade, flexibilidade, know-how e proximidade ao mercado europeu fazem com que marcas internacionais escolham produzir cá. Este modelo pode ser replicado em outras áreas. Portugal pode não apenas produzir, mas integrar cadeias de valor mais complexas, ligando mercados, recursos e conhecimento.
Mas há um ponto essencial que não pode ser ignorado. O crescimento atual não é totalmente estrutural. O PRR tem um peso significativo e esse ciclo terá um fim. Quando isso acontecer, o verdadeiro teste começa. Produtividade, eficiência, mercado de trabalho e capacidade de execução passam a ser determinantes. O posicionamento existe, mas precisa de ser sustentado.
O acordo entre a União Europeia e o Mercosul, mesmo com efeitos graduais, reforça esta leitura. Não é apenas um acordo comercial, é um sinal estratégico. A Europa quer diversificar e construir novas relações. E isso abre espaço para países que consigam intermediar essas ligações de forma eficiente.
Portugal pode ser um desses países.
Tem estabilidade, tem credibilidade internacional, tem talento e tem uma posição única que resulta da sua história. Não é apenas uma questão de geografia, é uma questão de identidade. De saber operar entre diferentes realidades e transformar isso numa vantagem económica.
No final, o que estas notícias nos mostram não é apenas um bom momento para a economia portuguesa. Mostram uma oportunidade rara. A possibilidade de Portugal deixar de ser visto como periférico e passar a assumir um papel mais central numa nova organização económica global.
A questão não é se o país está bem posicionado.
A questão é se vai aproveitar esse posicionamento.







