Depois de quase 40 anos com eleições presidenciais decididas à primeira volta, a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa só ficará resolvida no domingo, na segunda volta, e há dois possíveis ocupantes do Palácio de Belém: António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista (PS), e André Ventura, do Chega.

Seguro entrou nesta fase da campanha com a "vantagem" de ter sido o candidato mais votado na primeira volta, mas decidiu não perder tempo e praticamente não parou desde a primeira festa nas Caldas da Rainha, na noite de 18 de janeiro.

Depois de um arranque a "meia velocidade" até ao único debate televisivo com Ventura, esperava-se que a campanha, muito intensa na primeira volta, retomasse a mesma dinâmica na reta final até ao dia decisivo.

No entanto, a passagem da tempestade Kristin marcou também o regresso do candidato apoiado pelo PS, que decidiu visitar nesse mesmo dia, sozinho e sem informar a comunicação social, Leiria, uma das zonas mais afectadas por esta catástrofe.

Foi pela voz de Seguro, "chocado e impressionado" com o que presenciou, que os jornalistas souberam que tinha estado no terreno e, a partir daí, a campanha passou a ter um tom mais moderado, sem festejos e, durante vários dias, sem qualquer mensagem eleitoral.

O ex-líder do PS admitiu que foi difícil equilibrar a campanha com a preocupação com as pessoas que foram devastadas pela tempestade, garantindo uma "separação total" entre as duas.

A agenda diária, divulgada mais tarde do que o habitual, foi ajustada e até cancelada para que Seguro, que doou 1500 metros de tela para os cartazes finais, pudesse estar sozinho mas presente nas zonas afectadas.

A única exceção foi na terça-feira, quando se fez acompanhar dos jornalistas que o acompanham na estrada há um mês, numa deslocação a Proença-a-Nova, Castelo Branco, deixando ali uma promessa, caso ganhe as eleições, para a semana da sua tomada de posse: voltar às zonas afectadas para verificar se os apoios prometidos estão mesmo a chegar.

Foi precisamente em relação a estes apoios que Seguro fez exigências ao governo de Luís Montenegro, a quem já tinha apresentado anteriormente várias propostas para fazer face a esta crise, mas sem nunca antagonizar os ministros, argumentando que o importante agora é ajudar as pessoas.

No entanto, passada a emergência, o candidato já avisou que, como Presidente, não vai deixar morrer o assunto e quer um apuramento do que aconteceu porque, usando as palavras do ex-ministro Jorge Coelho a propósito da queda da ponte de Entre-os-Rios, "a culpa não pode ficar impune".

Depois de ter faltado a um discurso eleitoral em Viseu, na sexta-feira, e de não ter ficado para jantar, voltou à sua mensagem política no dia seguinte, em Guimarães, distanciando-se de Ventura e posicionando-se como garante da estabilidade, em oposição à turbulência.

Um novo dia e um tom mais elevado, avisando que não bastava "ganhar por um" voto, voltando ao apelo de uma vitória robusta para chegar a Belém com maior legitimidade política.

Apesar das sondagens favoráveis, manifestou "séria preocupação" com a ideia de que o voto é inútil porque "já está ganho", e continuou a apelar à participação, manifestando o seu receio de uma elevada abstenção.

Apontou depois o seu adversário como um risco para a democracia, alegando que utiliza métodos antidemocráticos e quer mudar o regime, argumentando que nunca foi "tão fácil e claro decidir" entre dois perfis e projectos completamente diferentes.

Insistindo na abertura e independência da sua candidatura, juntou o apoio que já tinha recebido da esquerda, incluindo dos seus adversários Marques Mendes e Gouveia e Melo, e dos ex-Presidentes da República Ramalho Eanes e Cavaco Silva.