Numa entrevista à Associated Press, o Diretor Executivo da AIE, Fatih Birol, traçou um quadro preocupante das repercussões globais daquilo a que chamou "a maior crise energética jamais enfrentada", resultante do bloqueio de petróleo, gás e outros fornecimentos vitais através do Estreito de Ormuz.

"No passado, havia um grupo chamado 'Dire Straits'. Agora estamos numa situação desesperada e isto terá sérias implicações para a economia mundial. E quanto mais tempo isto durar, pior será para o crescimento económico e para a inflação em todo o mundo", disse.

Para o executivo, o impacto será "o aumento do preço da gasolina, o aumento do preço do gás e o aumento do preço da eletricidade".

As dificuldades económicas serão sentidas de forma desigual e "os países que mais sofrerão não serão aqueles cuja voz é mais ouvida. Serão sobretudo os países em desenvolvimento. Os países mais pobres da Ásia, África e América Latina", disse o economista e especialista em energia que lidera a AIE desde 2015.

Sem um acordo sobre a guerra do Irão que reabra permanentemente o Estreito de Ormuz, "todos vão sofrer", acrescentou.

"Alguns países podem ser mais ricos do que outros. Alguns países podem ter mais energia do que outros, mas nenhum país está imune a esta crise", disse, porque sem a reabertura da via navegável, alguns produtos petrolíferos podem esgotar-se.

Fatih Birol disse que é possível que, na Europa, se ouça em breve a notícia de que alguns voos da cidade A para a cidade B podem ser cancelados devido à falta de combustível para aviões.

O diretor da AIE insurgiu-se contra o chamado sistema de "portagens" que o Irão tem aplicado a alguns navios, permitindo-lhes atravessar o estreito mediante o pagamento de uma taxa, afirmando que, se esta situação se tornar mais permanente, corre-se o risco de criar um precedente que poderá depois ser aplicado a outras vias navegáveis.

O responsável referiu ainda que mais de 110 petroleiros carregados de crude e mais de 15 navios carregados de gás natural liquefeito estão à espera no Golfo Pérsico e poderiam ajudar a aliviar a crise energética se conseguissem navegar no Estreito de Ormuz.

Mesmo com um acordo de paz, os ataques às instalações de energia significam que poderão passar muitos meses até que os níveis de produção anteriores à guerra sejam restabelecidos, disse.

"Seria extremamente otimista acreditar que será muito rápido", afirmou Birol, referindo que serão necessários até dois anos para voltar ao nível anterior à guerra.