Não tenho dúvidas de que o Cristo Redentor é o símbolo do abraço do Rio de Janeiro. É um monumento magnífico que dá as boas-vindas ao mundo.

Algumas estruturas dominam os horizontes, outras parecem vigiá-los. No alto do espetáculo do samba-enredo do Rio de Janeiro, com os braços estendidos em eterna bênção, está o Cristo Redentor. Uma figura tão icónica que transcendeu a arquitetura para se tornar uma presença que se aproxima do mito.

No entanto, por detrás da perfeição de postal, esconde-se uma história que tem tanto a ver com ambição de engenharia e identidade nacional como com fé, arte e o peculiar desejo humano de criar algo espantoso.

Este monumento é o material dos sonhos, nascido tanto da fé como da nacionalidade. A ideia de um monumento religioso a coroar o pico de granito do Corcovado é anterior à própria estátua em décadas.

Herança católica

Já na década de 1850, havia propostas para erguer um símbolo cristão sobre a cidade. Mas foi só no início do século XX, em meio ao secularismo crescente e ao desejo de reafirmar a herança católica brasileira, que o projeto ganhou força. Em 1921, o Círculo Católico do Brasil propôs a construção de uma grande estátua de Cristo. A angariação de fundos começou quase imediatamente, impulsionada não pelo Estado, mas por cidadãos comuns, alunos, paroquianos e famílias, todos doando o que podiam. Foi, desde o início, um projeto popular. Um monumento das massas.

O concurso de design que se seguiu produziu vários conceitos, mas a agora famosa figura Art Déco, calma e simétrica, com os braços estendidos, acabou por ser escolhida pelo seu simbolismo universal. Não se tratava de representar Cristo em sofrimento ou em triunfo, mas sim abraçado e em forma de cruz.

O projeto foi liderado pelo engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa, cuja visão era tão ousada como a própria montanha. Mas a estátua que vemos hoje é o resultado de uma colaboração internacional. O escultor francês Paul Landowski foi o responsável pela modelação da figura, enquanto o artista romeno Gheorghe Leonida criou o rosto sereno que confere ao monumento a sua inconfundível humanidade.

A construção começou em 1926 e demorou cinco anos a ser concluída. Trata-se de um feito notável, tendo em conta o pesadelo logístico de construir no topo de um pico de 700 metros, que oferecia apenas um acesso limitado e pouco espaço para os materiais de construção ou equipamento pesado. De facto, os materiais tiveram de ser transportados montanha acima através de um caminho de ferro estreito, originalmente construído para turistas, mas reaproveitado para um dos mais ambiciosos projectos de engenharia da época.

Com cerca de 30 metros de altura e uma envergadura de 28 metros, a estátua é fisicamente gigantesca e impressionante. Se acrescentarmos o pedestal de 8 metros, temos uma estrutura que é visível de quase todos os cantos da cidade. Mas o seu verdadeiro brilho reside no que não se vê. Em vez da tradicional pedra, a estátua foi construída em betão armado, um material relativamente novo na altura. O betão foi escolhido pela sua resistência e adaptabilidade. No entanto, ao longo da estrutura de betão, milhares de azulejos triangulares de 3 cm feitos de pedra-sabão foram cuidadosamente colocados, criando uma pele de mosaico sobre a estrutura. A pedra-sabão é resistente ao calor e à erosão e foi considerada ideal para ajudar o monumento a suportar o clima tropical do Rio de Janeiro. A escolha do material não foi apenas prática, foi poética. Cada azulejo foi cuidadosamente fixado por centenas de voluntários num material de tapete antes de ser levado para o local para ser aplicado na estátua pelos trabalhadores da construção. Muitos dos voluntários escreveram mensagens ou pequenas orações no verso dos azulejos antes de estes serem finalmente colocados no sítio. Assim, de certa forma, a estátua não é apenas um símbolo de fé; é de facto fisicamente construída a partir dela. Isso, penso eu, é realmente especial.

Ícone religioso

Quando a inauguração do Cristo Redentor teve lugar a 12 de outubro de 1931, o mundo tomou conhecimento. Rapidamente se tornou não só um ícone religioso, mas também um símbolo de orgulho nacional. O Cristo Redentor é hoje uma imagem mundialmente reconhecida que representa não só o Rio de Janeiro, mas também o próprio Brasil.

Ao longo das décadas, este monumento imponente foi testemunha de tudo, desde convulsões políticas, revoluções culturais e inúmeros altos e baixos económicos. Foi iluminado com inúmeras cores para assinalar acontecimentos mundiais, desde vitórias no Campeonato do Mundo de Futebol a campanhas pela paz e sensibilização ambiental. E, no entanto, apesar dos relâmpagos (é atingida várias vezes por ano), das intempéries e da marcha implacável do tempo, a figura perdura. Os esforços de restauração, principalmente em 2010, garantiram sua presença contínua, com a substituição de azulejos danificados e o reforço cuidadoso de sua integridade estrutural.

Créditos: Pexels; Autor: Vinícius Vieira ft;

Os fatos, por si só, não podem explicar o fascínio duradouro do Cristo Redentor. Há algo de profundamente romântico em seu cenário.

Ao nascer do sol, a estátua emerge da névoa e das nuvens como uma aparição divina. Ao meio-dia, ela contrasta com um céu impossivelmente azul. Ao pôr do sol, quando a cidade em baixo brilha a ouro e o Oceano Atlântico cintila por baixo, torna-se algo completamente diferente. Não é um monumento, mas um guardião.

Os casais viajam de todo o mundo para se colocarem aos seus pés. Pedidos de casamento são feitos e promessas são sussurradas. É, talvez inesperadamente, um dos grandes destinos românticos do mundo. Não por causa do que diz, mas por causa do que simboliza. Proteção, abertura e um amor que se estende ao exterior sem condições.

No entanto, mesmo os ícones mundiais têm de enfrentar as realidades do século XXI.

Preservação

O turismo, embora vital para a economia do Brasil, exerce uma enorme pressão sobre o sítio. Milhões de pessoas visitam o local todos os anos, o que exige uma gestão cuidadosa para preservar tanto a estátua como o ambiente que a rodeia no Parque Nacional da Tijuca.

O clima agreste representa outra ameaça, mais insidiosa. Tempestades intensas trazem raios cada vez mais frequentes e, portanto, desgaste acelerado. Os conservadores enfrentam agora a delicada tarefa de manter a autenticidade e, ao mesmo tempo, empregar técnicas modernas para garantir a longevidade.

Há também a questão da relevância. Num mundo cada vez mais secular e fragmentado, o que significa uma estátua colossal de Jesus Cristo? Para alguns, continua a ser um poderoso símbolo de fé. Para outros, trata-se mais de património cultural. Para muitos, é simplesmente bela. Talvez essa ambiguidade seja a sua maior força?

Olhando para o futuro, o futuro do Cristo Redentor é uma gestão cuidadosa. Estão a ser introduzidos sistemas de monitorização avançados para acompanhar a saúde estrutural. Iniciativas de turismo sustentável visam equilibrar o acesso com a preservação. As tecnologias digitais estão até a permitir visitas virtuais, levando o monumento àqueles que talvez nunca tenham posto os pés no Rio.

Mas, para além dos aspectos práticos, há algo muito mais duradouro. Ao contrário dos arranha-céus que competem por altura ou das pontes que se gabam de sua extensão, o Cristo Redentor não se esforça. Ele não domina a cidade, mas a completa. E é assim, em última análise, que ele perdura.

Num mundo que se reinventa constantemente, há algo de profundamente reconfortante numa figura que se mantém de braços abertos há quase um século. Permaneceu inalterada na sua mensagem e inabalável na sua presença. Lembra-nos que há coisas que valem a pena construir, não pelo lucro ou prestígio, mas por um significado mais profundo.

Talvez as maiores realizações não sejam aquelas que atingem os mais altos, mas aquelas que nos atingem a todos.