Mas, apesar do diagnóstico já ser amplamente conhecido, existe um ponto que começa finalmente a ganhar relevância: as soluções estão identificadas e são, em grande parte, replicáveis. O verdadeiro desafio está na sua implementação.
Ao longo dos últimos anos, tornou-se evidente que o principal desequilíbrio do mercado está na oferta. Portugal constrói menos do que necessita e isso tem um impacto direto nos preços, na acessibilidade e na estabilidade do setor. A solução começa, inevitavelmente, por aqui. Aumentar a oferta não é apenas uma necessidade, é uma prioridade estratégica.
Para isso, é fundamental acelerar processos. O tempo de licenciamento continua a ser um dos maiores entraves ao desenvolvimento imobiliário. Projetos que demoram anos a ser aprovados acumulam custos, perdem viabilidade e acabam por refletir esses atrasos no preço final. A simplificação administrativa, a digitalização dos processos e a definição de prazos claros são medidas que podem transformar rapidamente esta realidade.
Mas acelerar não chega. É necessário também inovar. A industrialização da construção surge como uma das respostas mais eficazes para reduzir custos e aumentar a produtividade. Métodos construtivos mais rápidos, baseados em pré-fabricação e soluções modulares, permitem entregar habitação em menos tempo e com maior previsibilidade. Esta abordagem já é comum em mercados mais desenvolvidos e pode ser uma peça-chave para responder à procura em Portugal.
Outro eixo fundamental passa pelo arrendamento. O mercado português continua excessivamente centrado na compra, quando a realidade europeia mostra que um sistema equilibrado depende de um setor de arrendamento forte e profissionalizado. Modelos como o build-to-rent ou o private rented sector (PRS) são hoje uma tendência clara na Europa e representam uma oportunidade para Portugal.
Para que este mercado se desenvolva, é necessário criar confiança. Um enquadramento fiscal estável, regras claras e mecanismos eficazes de proteção para proprietários e inquilinos são essenciais para atrair investimento institucional. Só assim será possível criar escala e garantir uma oferta consistente de habitação para arrendamento de longo prazo.
Ao mesmo tempo, o planeamento urbano deve evoluir. Em vez de respostas fragmentadas, é necessário pensar em clusters integrados que combinem habitação, serviços, mobilidade e espaços de trabalho. Este tipo de abordagem permite não só aumentar a eficiência dos projetos, mas também criar cidades mais equilibradas e sustentáveis.
A nível local, existem já exemplos positivos que mostram que é possível fazer diferente. Municípios que conseguem licenciar mais rapidamente e criar condições atrativas para o investimento demonstram que o problema não está na falta de interesse, mas na forma como os processos são geridos. Replicar estas boas práticas a nível nacional pode ter um impacto significativo.
A profissionalização do setor é outro fator crítico. A mediação imobiliária, a promoção e a gestão de ativos estão cada vez mais exigentes, com maior incorporação de tecnologia, dados e ferramentas digitais. A inteligência artificial, a análise de dados e a digitalização dos processos estão a transformar a forma como o setor opera e quem não acompanhar esta evolução ficará inevitavelmente para trás.
Importa também reconhecer que o mercado português continua atrativo. O interesse dos investidores internacionais mantém-se elevado, o posicionamento do país no Sul da Europa é cada vez mais estratégico e novos segmentos, como residências de estudantes, senior living ou soluções de co-living, estão a ganhar relevância. Isto mostra que existe potencial para crescer de forma diversificada e sustentável.
Mas esse crescimento só será equilibrado se houver uma resposta estruturada do lado da oferta. Caso contrário, o risco é continuar a assistir a um mercado onde os preços sobem, mas o acesso se torna cada vez mais limitado.
O caminho está identificado. As soluções existem. Muitas delas já foram testadas com sucesso noutros países e podem ser adaptadas à realidade portuguesa. O que falta é dar o próximo passo.
Executar.
Porque no imobiliário, como em quase todos os setores, o tempo é um fator crítico. Cada atraso representa custo, cada decisão adiada representa uma oportunidade perdida.
E neste momento, Portugal tem uma oportunidade clara: transformar um problema estrutural numa vantagem competitiva.
Mas para isso, é preciso agir.








