A realidade é que a crise da habitação não resulta de uma única causa. Resulta de uma soma de erros acumulados, muitos deles conhecidos há anos, mas que continuam sem resposta estrutural. E talvez o maior erro de todos seja insistirmos em discutir apenas sintomas quando o problema está na arquitetura do sistema.
O alerta recente do FMI é relevante porque confirma algo que muitos no setor sabem há muito tempo: a habitação deixou de ser apenas um problema social e passou a ser um problema económico. Quando os jovens não conseguem viver perto dos centros urbanos onde trabalham, a produtividade sofre. Quando empresas têm dificuldade em atrair talento porque o custo de habitação é incomportável, o crescimento sofre. Quando Portugal regista uma das maiores subidas de preços da Europa, enquanto os rendimentos não acompanham, o problema não é conjuntural. É estrutural.
Mas dizer que falta oferta é apenas o início da conversa, não o fim. É preciso perguntar porque falta oferta. Porque continua a ser tão difícil financiar promoção imobiliária. Porque a compra de solo para desenvolver projetos continua muitas vezes sem apoio bancário. Porque os licenciamentos continuam a demorar anos em vez de meses. Porque a burocracia urbanística continua a consumir tempo, capital e oportunidades. Porque ainda dependemos excessivamente de autarquias que muitas vezes não têm meios técnicos, capacidade de execução ou sequer sistemas atualizados para responder à urgência do problema. Cada minuto perdido na aprovação de um projeto custa dinheiro. Custa juros. Custa recursos humanos. Custa competitividade. E no fim tudo isso aparece no preço final da casa.
Ao mesmo tempo, cometemos um erro estratégico ao continuar a pensar a habitação quase exclusivamente pela lógica da compra e venda. Um mercado habitacional moderno não vive só de promover propriedade. Precisa de uma verdadeira economia do arrendamento. Precisa de uma indústria do arrendamento. E isso em Portugal continua subdesenvolvido. Países como Alemanha, Dinamarca ou Suécia perceberam há décadas que o arrendamento não se cria apenas com boa vontade, cria-se com estabilidade jurídica, incentivos fiscais e enquadramento que atraia capital de longo prazo. Nós fizemos muitas vezes o contrário. Criámos risco, instabilidade e desconfiança. E depois estranhamos a escassez.
Também ignoramos soluções que já existem. A industrialização da construção podia estar hoje a reduzir custos, acelerar entregas e aumentar escala. Métodos construtivos mais rápidos e eficientes não são teoria, são prática em muitos mercados. Tal como não é teoria a necessidade de repensar o urbanismo. Reduzir a excessiva dependência dos PDM, criar agências de coordenação urbana mais técnicas e menos políticas, desenvolver clusters integrados de habitação, comércio e serviços, tudo isto são soluções conhecidas. Algumas até foram prometidas no âmbito do Simplex. Muitas continuam por cumprir.
E depois existe a questão que poucos gostam de abordar frontalmente: a especulação não está apenas nos grandes investidores. Está também num comportamento social mais amplo. Critica-se o preço das casas, mas vende-se pelo máximo possível. Queixa-se do mercado, mas participa-se nele. Isso também faz parte do problema. Tal como faz parte do problema a baixa produtividade do sistema e a resistência em copiar modelos que funcionam lá fora.
O caso de Gaia demonstra aliás que quando se licencia mais, o mercado responde. Não resolve tudo, mas mostra que o problema não é falta de procura. É capacidade de resposta. E é aqui que Portugal continua a falhar.
Porque soluções existem. Mais arrendamento com benefícios fiscais reais. Mais construção industrializada. Mais solo disponível. Menos burocracia. Mais rapidez no licenciamento. Mais profissionalização dos intermediários. Mais execução e menos discurso.
Não precisamos inventar muito. Precisamos aplicar melhor.
A crise da habitação não é um mistério. É um problema conhecido, agravado por atrasos, bloqueios e falta de coragem para mexer na estrutura. E enquanto continuarmos a tratar isto como um debate ideológico em vez de uma questão de execução económica, continuaremos a perder tempo.
E neste tema, cada minuto perdido custa mais do que parece.







