Em criança, os meus amigos e eu víamos o "polícia de ronda" a passear na rua como um protetor de confiança e, de facto, era esse o lema estampado nos seus veículos de patrulha: Proteger e Servir.
Mas as perspectivas tendem a mudar à medida que envelhecemos. Se virmos muitos filmes com polícias desagradáveis em posições de poder, começamos a duvidar da fiabilidade do grupo como um todo. Ou, assumindo a responsabilidade do outro lado, se infringirmos a lei o suficiente por excesso de velocidade (ou de outras formas), acabamos por deixar de ver as forças da ordem como algo positivo e passamos a ver a polícia como uma entidade que deve ser encarada com cautela e suspeita.
O que me leva a uma das muitas razões pelas quais adoro Portugal: tenho tido as melhores experiências com a polícia portuguesa.
Espetáculo equestre
Um caso em particular: Uma vez, em Mafra, um transporte carregado de cavalos para um espetáculo equestre no Palácio ficou retido no parque de estacionamento, incapaz de manobrar uma curva apertada devido a um carro estacionado ilegalmente. A Guarda Nacional Republicana chegou ao local. Solução? Eles e alguns transeuntes pegaram no carro em falta e deslocaram-no, o camião seguiu para o seu destino, o carro foi recolocado no mesmo sítio e todos seguiram o seu caminho. Sem multa, sem reboque. Apenas um simples, "Vamos encontrar a solução mais rápida". Brilhante.
Créditos: Imagem fornecida; Autor: Tricia Pimental;
Não que a GNR não passe multas. Descobrimos isso em Esposende, quando ficámos entusiasmados por encontrar um lugar de estacionamento numa zona congestionada. Mais tarde, descobrimos porque é que o lugar estava livre: era para um magistrado. (Ainda não tínhamos aprendido a ler muito português.) Assim, quando regressámos ao carro, fomos recebidos com uma multa no para-brisas e uma "bota" num pneu. Um comerciante simpático na rua chamou as autoridades por nós, pagámos a multa aos gendarmes quando estes chegaram e regressámos rapidamente a casa. Também gostaram do nosso maltês, o que os elevou consideravelmente na minha opinião.
Conduzir em Lisboa
A minha interação mais dramática com homens fardados deu-se em Lisboa, um local onde não costumo conduzir. Um dia, andei às voltas em ruas de sentido único à procura de um lugar para estacionar. Por fim, encontrei uma rua estreita e coberta e virei para ela, apenas para me aperceber, com horror, que estava a conduzir por uma passagem para peões. (Os olhares aterrorizados das pessoas por quem eu passava eram um sinal de que estava a passar).
Felizmente, não as apanhei a todas, entrei na rua principal e adivinhem quem estava lá para me receber? Sim. Mandaram-me encostar e, antes que pudesse explicar no meu português melhorado, mas ainda assim hesitante, como é que aquilo parecia mesmo uma rua onde podia conduzir, desatei a chorar. A combinação da frustração de procurar um lugar para estacionar, o alarme por ter estragado tudo naquela zona pedonal e a preocupação com o preço da multa era demasiado grande.
Então o que é que o polícia fez? Fez uma pausa e estudou-me por um momento, e depois indicou-me onde havia estacionamento público a algumas ruas de distância. Com uma admoestação para ter mais cuidado da próxima vez, foi-se embora.
No parque de estacionamento, ainda estava a tremer e a tentar recompor-me quando telefonei ao meu marido para lhe contar o que tinha acontecido. Depois fui buscar ao banco de trás as coisas de que precisava para a tarefa que tinha em mãos, colocando o telemóvel em cima do carro para ter as duas mãos livres.
Horas mais tarde, de volta a casa, apercebi-me que o meu telemóvel tinha dado um salto algures no caminho, porque nunca o tinha tirado do tejadilho do carro antes de sair da garagem.
Créditos: Imagem fornecida; Autor: Tricia Pimental;
Imortalizei esse acontecimento inesquecível escrevendo uma canção sobre ele.
"Deixei o meu telemóvel na velha Lisboa"
(Cantada ao som de "I Left My Heart in San Francisco")
A beleza do Porto parece, de alguma forma, tristemente gay,
A glória de Tomar é de outro dia.
Eu tinha-me contentado muito com o meu companheiro em Penela...
Porque é que fui para aquela cidade junto à baía?
Deixei o meu telemóvel na velha Lisboa
No alto de uma colina, chama por mim.
Onde os teleféricos sobem a meio caminho das estrelas
Onde a polícia me puxou para o lado e eu chorei.
O meu telemóvel espera lá na velha Lisboa,
Caída no chão quando me libertei.
Quando eu voltar para ti, velha Lisboa
O meu marido, Keith, conduzirá para mim.
Para terminar, partilho apenas mais uma das muitas ironias da vida. Quando procurei na Internet a letra completa da canção de Tony Bennett, recebi uma oferta para enviar o toque para o meu telemóvel.
