Publicada na revista científica EMBO Reports, a nova pesquisa com moscas-das-frutas sugere que, na dose certa e na forma correta, uma “breve liberação dessas moléculas instáveis e reativas, produzidas pelas células gliais, o tecido de suporte do cérebro, pode realmente ajudar no reparo cerebral”.

A descoberta ocorre após décadas em que moléculas chamadas espécies reativas de oxigênio — radicais livres — foram consideradas as “vilãs do cérebro, responsáveis por mecanismos associados ao envelhecimento, neurodegeneração e danos causados por derrames ou traumas”, acrescentou o FC.

Em um comunicado, a fundação explicou que o “estresse oxidativo” é uma consequência direta do excesso dos chamados radicais livres no corpo, que pode ser causado por fatores de estilo de vida, ambientais e biológicos, como tabagismo, alto consumo de álcool, má alimentação, estresse, poluição, radiação, produtos químicos industriais e inflamação crônica.

Quando isso ocorre, surge um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e as defesas antioxidantes do corpo, que os neutralizam.

“Quando ouvimos falar de estresse oxidativo no cérebro, quase sempre é uma má notícia, associada ao envelhecimento, à doença de Alzheimer e a outras doenças neurodegenerativas”, afirmou o FC, acrescentando que o estudo divulgado hoje “mostra que um pulso breve e bem controlado de estresse oxidativo, imediatamente após uma lesão, pode realmente ajudar o cérebro a se reparar”.

Nesta investigação, Christa Rhiner, investigadora principal do Laboratório de Células-Tronco e Regeneração CF, e sua equipe demonstraram que, após uma pequena lesão cerebral em moscas adultas, um grupo específico de células de suporte cerebral, conhecido como glia, libera rapidamente um pulso de formas quimicamente reativas de oxigênio, incluindo peróxido de hidrogênio.

“Essa 'faísca oxidativa' controlada faz duas coisas ao mesmo tempo: ativa processos antioxidantes protetores na glia e, fundamentalmente, atua como um sinal de ativação para células que normalmente são inativas, levando-as a se dividir e substituir o tecido perdido”, diz o comunicado.

A equipe identificou a enzima responsável por esse pulso de radicais livres como Duox, uma enzima ligada à membrana presente nas células gliais que produz peróxido de hidrogênio fora das células.

“Isso foi surpreendente, pois inicialmente pensamos que as mitocôndrias — as pequenas baterias de células — seriam as principais geradoras de estresse oxidativo no cérebro lesionado”, explicou a primeira coautora Carolina Alves.

Quando os pesquisadores reduziram geneticamente a atividade do Duox ou diminuíram os níveis reativos de oxigênio com tratamentos antioxidantes, os cérebros lesionados das moscas produziram menos células novas e a resposta regenerativa foi substancialmente atenuada.

Por outro lado, estimular a glia para aumentar a atividade do Duox foi suficiente para desencadear divisões celulares adicionais, mesmo na ausência de lesão, observou o FC, destacando que isso significa que, em particular, o peróxido de hidrogênio derivado da glia é um “poderoso impulsionador da plasticidade cerebral”.

“Esses resultados desafiam a ideia simplista de que o estresse oxidativo no cérebro é sempre prejudicial e podem ajudar a explicar por que as terapias antioxidantes de amplo espectro falham em melhorar a recuperação cerebral em pacientes após lesões”, enfatizou o FC.

No futuro, estratégias mais direcionadas que mitiguem o estresse oxidativo crônico prejudicial preservando — ou mesmo aproveitando — esses sinais oxidativos de curta duração “poderiam abrir novos caminhos para promover o reparo cerebral”, consideraram os pesquisadores.