A assinatura deste acordo controverso suscitou sentimentos contraditórios, que vão desde a euforia dos industriais, que prevêem um aumento dos lucros a curto prazo, resultante da redução dos direitos aduaneiros sobre os automóveis e as máquinas, até à tristeza dos agricultores, que prevêem a degradação dos seus produtos, e ao receio dos ambientalistas, que receiam os danos que podem resultar deste agravamento da logística das cadeias de abastecimento a longo prazo.

O acordo pouco se assemelha ao projeto elaborado em 1999, altura em que o Reino Unido era um parceiro importante de uma União Europeia robusta, enquanto a América Latina estava assolada pelo descontentamento político e pela desordem social. Nas duas décadas seguintes, as clivagens na governação dos dois continentes alteraram objectivos como a livre circulação das populações e o respeito democrático do direito internacional.

Tanto as administrações republicanas como as democráticas dos EUA trataram a América do Sul como sendo o seu "quintal", onde os acontecimentos devem ser controlados para que a economia e a defesa do Norte possam ser de grande benefício.

A inação dos seis Estados membros originais do Mercosul tem vacilado com a instabilidade política. O Brasil, com uma população de 213 milhões de habitantes, tem sido o líder óbvio da Argentina. A Bolívia, o Uruguai, o Paraguai e a Venezuela (população total de 96 milhões de habitantes), embora os dois últimos países estejam suspensos desde 2016 por transgressões dos direitos civis, são também oito Estados latinos associados que têm voz, mas não voto, nas reuniões do grupo alargado.

Quase todos eles responderam às propostas da China, que forneceu infra-estruturas e financiamento para o desenvolvimento, sendo atualmente o seu maior parceiro comercial.A Rússia e o bloco euro-asiático, que inclui o Irão e os antigos Estados soviéticos, têm estado activos, em menor escala, estabelecendo acordos comerciais formais e informais com países individuais, sem insistir em mudanças políticas. Em contrapartida, têm apoiado a Rússia e a China no seio da ONU, no que diz respeito às suas disputas com os EUA.

A criação pela UE do seu maior tratado comercial de sempre conduzirá indiretamente a que a América do Sul se torne o pivot das exportações e importações para ambos os lados dos oceanos Atlântico Norte e Pacífico. Isto frustraria as intenções dos EUA de impor sanções ou tarifas aos países que não se curvassem à sua vontade.

Ao ordenar o rapto do presidente venezuelano, Donald Trump demonstrou a determinação férrea do seu movimento MAGA para alcançar a "supremacia americana" nos assuntos externos por qualquer meio. O Estado de direito internacional foi abandonado a favor da governação imperial e da crença de que todos os caminhos devem conduzir eventualmente ao domínio de Washington e do Pentágono.

Exemplo disso é a atual ocupação americana das ilhas Galápagos e o consequente controlo de toda a zona económica alargada do Pacífico até à costa do Equador, onde foram construídas três bases militares. As ilhas da Gronelândia, Cuba e Açores poderão ser as próximas a serem adquiridas por Donroe.

A oposição a este Tratado, liderada pela França, Áustria e Hungria, tem sido feroz no seio da UE. É sua intenção forçar uma votação na próxima assembleia do Conselho para que seja interposto um recurso judicial junto do Tribunal Internacional de Justiça para que seja aplicado um adiamento enquanto se procuram mais salvaguardas para proteger os agricultores e manter as regras de proteção existentes que proíbem a utilização de pesticidas perigosos e a crueldade para com os animais.

Os ambientalistas e os povos indígenas que temem a reversão dos Acordos de Paris e de outras legislações ambientais duramente conquistadas, ao permitirem a continuação da destruição de habitats como a floresta tropical amazónica, estão a combinar o financiamento dos custos dos recursos na assembleia da ONU, aos quais se oporão energicamente as corporações de elite motivadas pelo lucro

A alegada decadência da UE e a provável retirada dos EUA da NATO contribuirão para o caos causado pela reformulação do poder geopolítico desalinhado.

Este é um Tratado que está fora do seu tempo. Foi remendado para servir interesses que já não são relevantes para os desafios a enfrentar no segundo quartel do século XXI. As relações comerciais entre nações devem ser motivadas por necessidades sociais: não como instrumentos políticos para permitir a competição estratégica do capitalismo económico.