Houve um tempo, não há muito tempo, em que "comida de hotel" evocava uma imagem muito específica: uma triste sandes de taco com batatas fritas encharcadas na sala de jantar ou, na melhor das hipóteses, uma cloche de prata levantada para revelar algo ligeiramente apologético. O serviço de quartos era um último recurso e o restaurante do hotel era mais uma conveniência do que um destino. Mas os restaurantes estão a tornar-se cada vez mais a razão para reservar a noite, e não o contrário. Apercebendo-se de que os hóspedes querem experiências para além do quarto - e não apenas uma cama confortável e bons produtos de banho - os hotéis estão a melhorar a sua oferta gastronómica. Os viajantes querem uma história para levar para casa, e uma refeição inesquecível tornou-se uma das formas mais convincentes de a contar.
Atualmente, vemos hotéis a contratar chefes ambiciosos, a construir belos restaurantes com entradas de rua e a tratar as refeições como uma experiência central. O restaurante do hotel tornou-se um destino por direito próprio e os menus estão a inclinar-se para a sustentabilidade, o abastecimento local e a especificidade cultural, reflectindo uma mudança mais ampla na restauração global no sentido da autenticidade e da consciência ambiental. E depois há a ambição: Os restaurantes sérios estão cada vez mais a optar por viver dentro de hotéis e as estrelas Michelin brilham agora junto às entradas dos hotéis.
E parece que a tendência está a crescer: na gala Michelin deste ano, o restaurante Éon do Placate Severo, no Porto, recebeu a sua primeira estrela, juntando-se assim à lista de hotéis portugueses com um restaurante adornado com estrelas Michelin. O hotel só abriu no ano passado, mas a ambição para o restaurante era clara.
Restaurante Áurea
Um dos meus restaurantes de hotel preferidos é o Restaurante Áurea, situado no excitante Art Legacy Hotel, no centro de Lisboa. Já um edifício de referência, renovado de forma colorida pelo arquiteto Luís Rebelo de Andrade, é uma experiência sensorial completa com a cozinha de fusão desconstruída do chefe André Serra, que mistura as tradições culinárias de Lisboa com outras influências, como a cabo-verdiana e a espanhola. A comida é tão colorida como as paredes que a rodeiam, e o bar é um excelente ponto de partida para a noite: aqui, os cocktails artesanais acompanham a vista da cozinha aberta. Serra convida os seus chefes a brilharem, apresentando os pratos que eles próprios confeccionaram - uma caraterística simpática. Não perca o gaspacho alentejano ou a codorniz com caril japonês e salada tailandesa de manga verde.
Kikubari por Kabuki
A comida também pode ser uma boa forma de dar vida ao átrio, abrindo o edifício a visitas e reservas de quem não está alojado no hotel. Um bom exemplo é o Kikubari by Kabuki no Four Seasons Ritz Hotel em Lisboa, que recentemente começou a utilizar o seu espaço de bar durante o dia para almoços, que agora está aberto todo o dia. O bar é irmão do restaurante Kikubari do hotel, premiado com uma estrela Michelin, e mistura comida japonesa com cocktails de assinatura. Adicione um gyoza de camarão escarlate com caviar, uma sanduíche de bife wagyu ou um uramaki de camarão dinamite ao seu cocktail ou cerveja Asahi, ou venha para um almoço completo, como fazem os japoneses, com uma Bento Box. Os cocktails são elaborados com ingredientes japoneses fundidos com sabores portugueses, e são absolutamente deliciosos.
O Mundo Culinário do Vila Vita Parc
Se não consegue decidir entre sushi ou carne de vaca, marroquino ou parisiense, vai ser mimado pela escolha no Vila Vita Parc, no Algarve. O enorme resort de luxo tem 12 restaurantes e 7 bares - e com 22 hectares de paisagens subtropicais e praia, nunca tem de sair do hotel. Mas este não é o seu comum all-inclusive. As opções gastronómicas são de elevada qualidade, e encontrará mesmo um restaurante com 2 estrelas Michelin, o Ocean by Hans Neuner (é necessário reservar com antecedência). A filosofia culinária do resort está firmemente enraizada na sustentabilidade e na autenticidade. O Vila Vita Parc tem a sua própria quinta no Alentejo, onde a produção de carne e outros produtos, como o azeite, compotas e vinho, é cuidadosamente controlada, garantindo a mais alta qualidade. O resort possui, inclusivamente, uma garrafeira com mais de 5.000 garrafas, num total de 1.000 referências diferentes, que oferece degustações. Por isso, se quiser fazer uma viagem "à volta do mundo em 80 refeições", desde a cozinha japonesa (Mizu Teppanyaki) e italiana (Giardino) à portuguesa (Adega) e francesa (Bela Vita Bar & Brasserie), não procure mais. Para um almoço ligeiro ou um jantar descontraído, vá ao Whale, com a sua cozinha costeira internacional, ou dirija-se ao vizinho Porches, onde o Villa Vita tem um Biergarten - um local para se deliciar com schnitzels e pretzels à medida dos seus desejos.
Exuberante
O restaurante Exuberante no Altis Porto Hotel é dirigido com confiança pela chefe Rafaela Ferreira. Recentemente nomeada 'Chefe Revelação 2025' nos Prémios Mesa Marcada, o seu currículo inclui ser sub-chefe no restaurante Michelin Feitoria ao lado do chefe André Cruz. O Exuberante tem uma oferta elevada de vegetais, mas também há carne e peixe no menu, que se divide em quatro categorias. Uma delas é uma opção de partilha e o valor nutricional é, em geral, tido em conta. O ambiente informal, mas elegante, acolhe tanto os clientes habituais locais como os visitantes do Porto. Comece com um aperitivo no Slowly Bar ou termine a noite aqui com um pouco de agitação.
Mesmo que ficar num hotel com um ótimo restaurante signifique o luxo e o conforto de uma curta viagem de elevador até uma cama macia depois da sua grande refeição, os restaurantes estão, na sua maioria, abertos também a pessoas que não estão hospedadas nos hotéis. Aproveite!






